sábado, 3 de janeiro de 2009




















Sempre quis ser um pintor
Como o meu pai e pai seu,
Preservar a tradição,
Porém ser inovador
E desenhar Prometeu
Queimando a sua criação.

Pois sempre sonhei roubar
O prestígio do Olimpo
E, prodigioso, poder espalhar,
O fogo, infernal mas limpo.

Numa tarde de nevão
Estava a descolorir
E tanto me tremia a mão
Que vi meu pincel a cair.

O nevão foi tempestade
E eu queimei a pintura
Com o fogo do fracasso:
Quem sucumbe à tremura
Risca com leviandade,
Não pode ser nenhum Picasso.

Nessa tarde desisti:
O frio era tanto
Que até os ossos tremi.
Todavia, um célebre pintor
Não pode esperar um manto,
Só pintar o cobertor.

Porque tremi, desisti.
Eu, com sonhos de chamas,
Morri os sonhos ao frio.
Hoje apenas espio
O que teria de famas
Se tivesse afastado melhor
A ameaça de um pormenor.









Fotografia de Ana Pinho Ferreira
Música de "God is an astronaut"

(O Tiago Garcia trocou a música da composição, e este é o link da versão dele: http://www.youtube.com/watch?v=KPyNbti2eCw)

4 comentários:

  1. Está tão completo.Até arrepia, mestre :)
    Quero ver mais!^^

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  2. amei o teu blog, gonçalo :) escreves muito bem, adoro. e tinha que comentar esta porque tem God Is An Astronaut eheh

    fica bem ;)

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  3. exacto, ela não devia ser comum, devia saber que é tudo hormonal.

    btw, gostei da conjugação de god is an astronaut com o poema, estás quase um pintor feito. e parabéns à ana pela foto ^^

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  4. Belíssimo, Gonçalo. Descreves muito do ser humano em poucas palavras, nós humanos, que tanto sonhamos com o fogo, parece até que ardemos e nunca mais morremos, e tão inúteis somos quando estamos dentro, e fora do coração, dos que sonham à nossa volta.
    O teu dedo faz belas homenagens à nossa língua mãe, belos desenhos, e isso "Até arrepia", como é dito em cima.

    Li o teu poema a ouvir isto - http://www.youtube.com/watch?v=KPyNbti2eCw - e desculpa a minha falta de palavras, e difícil falta de expressão. Passarei aqui mais vezes!

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