quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Se um dia tudo corre mal
E o sol não brilha, triste,
E a água não corre porque o mar desiste,
Se uma manhã não deixar de chover
Nem tão pouco se ouça o céu a gemer,
Se toda a gente se calar cinzenta
Perdida nas ruas onde a cor se ausenta,
Se até das flores foge o vigor
E se como as folhas das árvores caia o amor,
Se até o calor da lareira for invernal
Vendo as paredes desabarem se cal,
Se o por do sol não mais chegar
E chegado tudo murche para ele se despachar,
Se até a noite ficar sem ar
E a lua sufoque sem sítio onde voar,
Enfim, se um dia tudo for desgraça
E descubras nos dias só cansaço
Lembra-te que o mundo só está soturno
Por teu desgosto, e trespassa
O coração de um deus diurno.

Não, quando tudo for cansaço,
E já que não queres ver no vento
A felicidade do momento,
A efemeridade do correr,
Lembra-te que até o cansaço
É um privilégio escasso,
Que como o vento deves viver:
Quaisquer as folhas que leves no regaço
Tudo é amplo e luminoso,
Tudo para ti é espaço
Para uivar e para dançar e para o cansaço.
O vento vai-se rápido e vive tudo,
Não queiras tu não viver e uivar mudo.

Não, , flore, voa, irradia!
Porque se tudo existe
É para ser posto em riste
E não ser preservado
Como a tristeza de um dia.

Vive-a, agarra-a, engole-a, com avidez
Nada no rio se te parecer transbordado,
E, quando chegar a tua vez,
Nada há-de te ter faltado.

Se ainda assim não quiseres, se um dia tudo te correr mal,
Lembra-te que os mesmos ruídos
Não se mantêm dois dias seguidos.



Outono de 2008

2 comentários:

  1. Aprende-se imenso com estas tuas palavras! :)
    Adorei!
    E boa ideia dar um estilo interessante com as cores!

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