Quando o fim chegar, vagaroso,
Dolorosamente, dançando a valsa do meu adeus,
Deixando esvoaçar o vestido
De tecido cosido por tudo o que perdi,
Baraços que eram meus porque os sonhava.
E que, depois, quando já só sabia desistir,
Os enrolei de novo num novelo
E os deitei, e cobri-os com terra.
Desde aí morri.
E, apesar de ainda poder andar,
Sem ter para onde ir, nem poder saber
De onde vim, não tinha baraços para marcar o destino
Que já havia percorrido.
Apesar de ainda poder andar,
Não tinha baraços que me ligassem os ossos entre si
Nem os olhos às lágrimas.
Desmanchado no chão, esperava pelo dançar do fim.
Ele vinha em direcção de mim e eu
Já falecido.
Sem ter o que lembrar,
Sem saber o que tinha traçado em tanto tempo,
Sem já ter baraços para atar nós nos dedos
Para não mais me esquecer de nada.
Mas não havia nada de que me pudesse esquecer.
E nem no meu fim a melodia
Da valsa da minha despedida,
Que nem sequer eu dançava,
Eu podia, jazendo, ouvir.
A minha despedida será como o meio
O meio da história, quando nada muda e nada mudou,
E a história, vácua memória, se limita a enrolar-se
Com novelos que já perdi,
Porque o fim chega, devagarinho,
E foi como se não tivesse vivido.
Imóvel, de mãos atadas, com os belíssimos baraços de que adbiquei
Para poder vendar os olhos e não mais ver.
Não é realmente uma despedida porque ninguém se despede.
Não há nada para despedir
E, se do nascer até morrer,
Não houve vida nenhuma,
O único sinal que me fez saber que agora é o fim
De nada,
É que anseio chorar.
Que recordo que a mágoa existe,
Que a desilusão estou certo de não ser ilusão.
Há marcas de mordaças nos meus dedos.
No fim, só a mágoa se manteve comigo,
Só a mágoa me foi fiel.
Tudo o resto me fugiu.
E quando o fim está, finalmente,
Sobre mim,
Ouço, por fim, a maravilha do seu choro,
Sinto suas lágrimas em meu dorso
Porque até ele sabe que está a acabar
Algo que não teve começo.
Apagar quem já perdeu os sonhos.
E, por isso, não soube eu saudar a saudade,
Abraçar a nostalgia ou poder
Conhecer sequer a alegria
De sentir o coração a bater.
O fim chega e eu julgo que o meu coração
Nunca bateu.
E nunca o sol entrou
Por meus salões sem pó.
E nunca ninguém se lembrou
Se eu estive aqui, só o fim.
Nem o fim.
O fim é o fim.
Música de Ryuichi Sakamoto (por esta música vale a pena ter vivido)
Uau.
ResponderEliminarSente-se uma melancólia e uma nostálgia tão confortante Gonçalo.Parece que o fim de aproxima ao som da melodia, calmo e imperturbável...És mestre.
Deixas-me sem palavras, por isso limito-me a ler e ouvir as tuas.
Melancolia e nostalgia. Não sei explicar os acentos :|
ResponderEliminarAozora significa "céu azul".
ResponderEliminarFluído, "sinestésico" - são essas as palavras que encontro para o teu poema. Continua com o teu trabalho formidável, Gonçalo. :)
já agora, sim, tenho um blog, mas não o actualizo muito, mas aqui está.
ResponderEliminarrealmente bonita
ResponderEliminarSinceramente nem ser o que dizer :)
ResponderEliminarSó sei que ler este texto é remédio santo para fazer qualquer um abrir os olhos à sua própria vida.
Só pela lágrima que me espreitou pelo cantinho do olho acredita que o fim ainda irá chegar porque houve um começo e tu estás no meio, não de uma história vazia que não está escrita em nenhum lado, mas no meio desta existência carregada de vida onde consegues tocar nas pessoas desta maneira bonita. É dos poemas mais lindos que li na minha vida. Existes, sim, e de uma maneira intensa. Recordar o fim torna-se uma certeza. A única coisa que não há é palavras suficientes para exprimir a maneira como este poema toca por dentro.
ResponderEliminarSeu poema é lindo!!!!
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